Olá investidores/leitores, vamos falar de Javier Milei.
Farei algo que a mídia financeira não faz, que é falar do superestimado (pela mesma) presidente argentino e, não à toa, amigo político de Jair Messias Bolsonaro — o qual a Polícia Federal (PF) encontrou em seu celular, um documento em que o ex-presidente cogitava a possibilidade de pedir asilo político à Argentina. Mas, com Bolsonaro enterrado politicamente, voltemos ao Milei!
Como sabemos, Javier Milei prometeu ser o furacão liberal que varreria a corrupção da política argentina.
No entanto, os ventos que hoje sopram em Buenos Aires carregam o cheiro conhecido da velha política: favorecimento, esquemas de propina e blindagem midiática (digo a mídia financeira que costuma ser de direita e ter fetiche pelo liberalismo).
Quando Javier Milei assumiu a presidência da Argentina, levou consigo um discurso agressivo contra o que chamava de “casta” — o conjunto de políticos profissionais, empresários parasitários e sindicalistas coniventes com um Estado inchado e corrupto. A promessa era clara: desmontar essa estrutura e inaugurar uma nova era de austeridade, liberdade econômica e ética na gestão pública (no nosso passado recente, conhecemos bem esse discurso e sabemos no que deu)!
Porém, menos de um ano depois, o próprio governo Milei começa a ser tragado por aquilo que jurou combater. E o mais preocupante: em vez de transparência e responsabilização, o que se vê é negação, cortina de fumaça e uma mídia financeira simpática ao governo tentando minimizar ou silenciar o escândalo.
A Corrupção que Vem de Dentro
O caso mais rumoroso envolve a Agência Nacional de Discapacidade (ANDIS), onde denúncias apontam que contratos de fornecimento de medicamentos estavam sendo superfaturados em troca de propina. Os áudios divulgados revelam que Diego Spagnuolo, ex-diretor da agência e advogado pessoal de Milei, mencionava uma “comissão” de 8% paga por empresas privadas a figuras do alto escalão, incluindo Karina Milei, irmã do presidente, e seu assessor Lule Menem.
A resposta do governo foi rápida — mas não no sentido esperado. Spagnuolo foi demitido, os áudios foram desqualificados como “montagens”, e as investigações vêm sendo tratadas mais como uma conspiração da oposição do que como um escândalo ético de primeira ordem. Não houve pronunciamento direto de Karina Milei, tampouco transparência ativa por parte do Executivo.
Em paralelo, outros episódios vão se somando: o escândalo envolvendo a criptomoeda $LIBRA, promovida por Milei antes de tomar posse e que gerou perdas vultosas a investidores; e a relação de figuras aliadas, como José Luis Espert, com empresários investigados por tráfico internacional de drogas.
A Mídia Que Protege
Qual a lógica nesses tipos de denúncias? Sendo elas graves, a cobertura midiática deveria ser à altura! Contudo, o que se vê em boa parte da imprensa econômica, especialmente nos veículos alinhados ao liberalismo de mercado, é um esforço coordenado para mudar o foco. Em vez de investigar o conteúdo das acusações, muitos analistas se concentram em discutir os efeitos dos escândalos no “humor do mercado”, na estabilidade do câmbio ou no “risco político” para investidores estrangeiros.
Há também uma tendência de despolitizar a corrupção. Os episódios são tratados como desvios individuais, “erros administrativos” ou fruto de intrigas palacianas — jamais como resultado de uma lógica de poder centralizado, autorreferente e ideologicamente cega. Tudo isso contribui para esvaziar a gravidade do problema, ao mesmo tempo em que protege o projeto político-econômico de Milei da responsabilização real.
Mais alarmante ainda são os casos de censura judicial sobre a divulgação dos áudios e documentos comprometendo o governo. Em um país onde a liberdade de imprensa é um dos poucos mecanismos de controle que restam frente a um Executivo hiperconcentrado, calar jornalistas e ameaçar veículos críticos é uma linha que nenhum governo deveria ultrapassar — muito menos um que se apresenta como libertário.
O Liberalismo que se Distorce
O caso Milei representa um paradoxo que deveria acender alertas em toda a América Latina: o liberalismo de verniz moralista que, ao chegar ao poder, se comporta como qualquer estrutura tradicional de clientelismo. Quando escândalos vêm à tona, não há espírito público, mas sim corporativismo ideológico e recuo ético. E acreditem, isso tem implicações profundas!
O discurso anticorrupção de Milei, assim como o de tantos outros populistas modernos, serve mais como ferramenta de mobilização do que como projeto real de governo. Quando a retórica encontra a realidade do poder, o que prevalece é a conveniência, não a coerência.
Quando o “Novo” Repete o “Velho”
O que está em jogo na Argentina hoje não é apenas a reputação de um governo, mas a credibilidade de um modelo que prometia ser alternativo. Milei não é o primeiro a subir ao poder prometendo romper com a política tradicional — e infelizmente não será o último a frustrar essa promessa.
Diante das denúncias, a resposta que se espera não é negacionismo nem blindagem ideológica. É transparência, investigação independente e responsabilização. Caso contrário, o discurso de combate à “casta” se tornará apenas mais uma fantasia eleitoreira — enquanto a corrupção, velha conhecida da América Latina, seguirá em silêncio, agora vestida com as roupas novas do liberalismo radical.
Enfim, parece que voltamos à obviedade: Não existe salvador da pátria na política! Ou seja, a política não precisa de heróis, mas de instituições fortes e cidadãos atentos.
Buenos dias!
