A classe média brasileira, que historicamente representava o símbolo da estabilidade econômica e do progresso social, encontra-se hoje em um momento de crise profunda. O aumento vertiginoso dos preços, a elevação das dívidas familiares e a perda de poder aquisitivo, impulsionados pela pandemia de COVID-19, têm levado muitos a questionarem o futuro dessa camada social.
Dentro desse contexto, um conceito clássico amplamente discutido no âmbito da educação financeira, ressurge: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Esse adágio ilustra como as gerações podem passar de uma situação de prosperidade para a decadência econômica ao longo do tempo, um fenômeno que se intensifica na atual conjuntura.
A crise gerada pela pandemia acelerou uma série de desequilíbrios econômicos, sendo a mais notável a acentuada disparada de preços, que afeta diretamente o orçamento das famílias. A classe média, que historicamente consegue manter um certo nível de consumo e poupança, viu-se agora obrigada a enfrentar um cenário de inflação elevada e endividamento crescente.
Muitos perderam empregos ou viram seus rendimentos estagnarem, enquanto os preços dos bens essenciais, como alimentos, combustíveis e serviços de saúde, dispararam. Para piorar, a taxa de juros elevada, adotada como medida para conter a inflação, acabou encarecendo ainda mais o crédito, tornando a dívida pessoal uma realidade insustentável para muitos.
O conceito de “pai rico, filho nobre, neto pobre”, originado da obra: Pai Rico, Pai Pobre (de Robert Kiyosaki) sugere que, embora a primeira geração de uma família possa alcançar a prosperidade, a segunda tende a gastar os recursos com uma vida de privilégios, o que compromete a geração seguinte, que acaba não conseguindo manter o patrimônio.
Trazendo isso para o contexto atual da classe média brasileira, vemos um quadro semelhante: muitos pais, que conseguiram conquistar a estabilidade financeira ao longo de suas vidas, acreditaram que seus filhos teriam a oportunidade de crescer em um ambiente de maior conforto econômico.
No entanto, a realidade que se apresenta a essas novas gerações é um cenário de dificuldades financeiras crescentes, onde as dívidas se acumulam e a capacidade de poupança vai diminuindo. Sendo assim, o endividamento da classe média, impulsionado pela crise econômica, é um dos principais fatores que contribuem para esse cenário de “desaparecimento” do patrimônio familiar.
Em um ambiente de constante incerteza, onde a inflação e os juros elevados corroem as finanças pessoais, muitos acabam utilizando o crédito de forma desenfreada, acreditando que isso garantirá a manutenção de um certo padrão de vida. Contudo, essa atitude pode ser prejudicial a longo prazo, pois o pagamento das dívidas muitas vezes compromete a capacidade de investir e acumular riqueza.
Não obstante, o que deveria ser uma geração próspera, acabando por repassar um patrimônio substancial para seus filhos e netos, vê-se perdida em um ciclo de dívidas, dificuldades e desvalorização dos bens.
Outro fator relevante para a extinção do patrimônio familiar é a mudança no comportamento do consumo. As novas gerações, cada vez mais influenciadas à busca pelo prazer imediato e pelo consumo excessivo, acabam por gastar mais do que ganham, muitas vezes sem o devido planejamento financeiro.
Esse comportamento, aliado à falta de educação financeira adequada, potencializa o risco de que o patrimônio construído pelos pais seja dilapidado, resultando em uma nova geração sem recursos suficientes para garantir sua própria estabilidade econômica.
Para piorar, o comportamento das pessoas no mundo contemporâneo é muito influenciado pelo o que elas postam em suas redes sociais, já que parecer ser é mais importante do que ser. Isso, muitas vezes, bancado à custa de deterioração de patrimônio familiar. Os vilões são os gastos com viagens, carro do ano, iphone (tem que ser o mais novo, senão não vale), restaurantes caros, etc.
Enfim, como bem disse o sociólogo alemão, Erich Fromm em sua obra – Psicanálise da Sociedade Contemporânea: “No capitalismo, o homem adulto tornou-se uma criança que brinca com brinquedos caros e busca incessantemente a satisfação imediata, sem compreender que sua liberdade está em não ser dominado pelos próprios desejos.”.
Ou seja, tal reflexão se aplica ao comportamento de muitos adultos da classe média atual, que, em busca de um consumo desenfreado, acabam se tornando prisioneiros de um sistema que os impede de alcançar a verdadeira estabilidade e prosperidade, perpetuando um ciclo de endividamento e fragilidade financeira para as futuras gerações.
Resumindo, a classe média enfrenta hoje uma crise sem precedentes, onde os aumentos dos preços e das dívidas, têm fragilizado o patrimônio familiar, dificultando a manutenção da estabilidade financeira por várias gerações. O conceito de “pai rico, filho nobre, neto pobre” se torna uma metáfora pungente para ilustrar a dificuldade que a classe média tem em preservar e transmitir seu patrimônio, evidenciando que o atual cenário de crise econômica pode ser responsável por um fenômeno de empobrecimento das futuras gerações.
Portanto, para que isso não se concretize, é necessário um esforço coletivo, envolvendo uma mudança cultural em relação ao consumo e à educação financeira. Outrossim, é de suma importância investir em bem-estar, pois o marketing percebeu que a pessoa ansiosa consome mais e, muitas vezes, desnecessariamente. Somente assim, pode-se garantir que as gerações vindouras possam alcançar o mesmo nível de prosperidade que a classe média um dia soube conquistar.
Forte abraço!
