“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, diz o ditado. Mas o que o ditado não diz é que ver o que não se deve, ou o que ninguém quer ver, pode ser doloroso – ou mesmo perigoso. Não é à toa que, em muitas mitologias, o ato de ter os olhos abertos está associado a conhecer o bem e o mal, como quando Adão e Eva comem do fruto proibido: “… e seus olhos se abriram, e perceberam que estavam nus”. Resultado: a expulsão do paraíso.
O paraíso de André, protagonista de 13 anos de Lá é o tempo, novo e fulminante romance de Maria Fernanda Maglio recém-lançado pela Todavia, começou a fechar suas portas quando mataram o borracheiro Salu. Ao mesmo tempo, foi como se janelas se abrissem no ar – e André visse a própria vida correr por trás daquela morte. O borracheiro Salu era seu amigo, ou melhor, quase um substituto para o pai que nunca teve. Depois do assassinato, o mundinho pacato do menino começa a sair dos eixos.
André, que sempre fora uma criança sensível e quieta, passa a ser cada vez mais arrastado por um redemoinho de emoções que não entende, mas ao qual não consegue – nem quer – resistir: desejo de vingança, desamparo, uma excitação estranha. É como se seu corpinho agisse sem sua autorização. Não é só André que é impelido por tal “lógica própria do corpo”, sobre a qual Nietzsche discorre em Assim falou Zaratustra: o corpo como “uma grande razão, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor”. Também os outros personagens – sobretudo o tenente Fonseca e o personagem chamado apenas de “o escritor” –, assim como seus discursos e o próprio conceito de tempo, são tragados por um turbilhão que tudo liga e justapõe e absorve feito um buraco negro. A narrativa de Maglio parece beirar permanentemente o horizonte dos eventos, o ponto de não retorno.
A história é contada alternando as perspectivas de André e do escritor – e estas são entremeadas pelos depoimentos dos outros personagens. André nos é apresentado através de um estonteante discurso indireto livre, que se desdobra aos saltos entre a terceira e primeira pessoa. O escritor, por sua vez, é narrado em segunda pessoa, numa sequência de orações paratáticas com enorme força de tração. Ambas as perspectivas trazem o verbo no presente do indicativo, e todos esses recursos, usados com absoluto domínio da economia da escrita, convergem numa galopante e magnética narrativa.
“Mataram o borracheiro Salu” – com essa frase, adentramos o universo de André: ele a escuta na escola, sentindo uma “pelota engordando rápido no estômago, que nem o mofo da parede do banheiro ou uma massa de bolo com um pote inteiro de fermento”. Massa que vai se encher cada vez mais de um vazio quase insuportável: a saudade.
Na sequência, somos apresentados ao escritor, um homem infeliz que, quando não está lecionando, cheira cocaína e escreve, depois, escreve e cheira cocaína, o que não o torna menos infeliz, mas faz com que se sinta vivo. O escritor, então, conhece Marta e para de cheirar e escrever, mas continua infeliz. O casal tenta muito ter um filho, porque Marta quer desesperadamente engravidar. O escritor não sabe se deseja a paternidade, mas se dobra à vontade da mulher. Até que é “encontrado por uma história”: uma velha mendiga – figura meio mística, mistura de vidente e bruxa, a imagem pervertida de uma musa – na porta da padaria onde ele sempre toma café lhe conta a respeito de André: menino de 13 anos que teria matado um traficante numa cidadezinha do interior.
No preciso momento em que o escritor se inclina para ouvir melhor a velha, é como se ele (junto com a leitora) se debruçasse sobre o abismo de um mundo fantástico que se abre à sua frente – e o compele a um mergulho. Ele sente que precisa largar Marta, largar sua vida de professor, largar tudo para escrever aquela história.
Ainda sentado no chão da padaria, decide partir para a cidade indicada pela mendiga, da qual sabemos apenas que termina com “ópolis”: “Um município a duzentos e setenta quilômetros dali, com vinte e cinco mil habitantes, tendo a plantação de soja como a maior fonte de renda”. Lá, entrevista os muitos envolvidos no bizarro caso jurídico, cujo processo, para piorar, ainda teria sido destruído em um misterioso incêndio. O escritor fala com o advogado de defesa de André, com o tenente Fonseca (na época, policial responsável pela ocorrência), com a filha do tenente (com quem passa a ter também uma relação amorosa), com Tião (antigo colega de escola de André), e com o guarda da Febem – para onde André fora levado após o crime.
Entre os depoimentos, a história é reconstruída em recuos no tempo, por meio dos quais imergimos na vida das personagens, suas relações, desejos, transformações, carências. E sobre tudo e todos paira o mistério da morte: que é sempre um “lá”, mas, por inversão, é também o mistério da vida, o aqui – e os mistérios de morte e vida formam juntos uma terceira dimensão, que “é o tempo”.
A filosofia da Grécia Antiga diferencia entre três noções de tempo: Cronos, o tempo linear, quantitativo e cronológico dos relógios e calendários; Kairós, o tempo qualitativo, o momento oportuno; e Aion, que se refere à eternidade, tempo imensurável que transcende a existência física. Como em um quebra-cabeça ao qual faltam peças, mas que, ainda assim, se deixa montar, a escrita de Maglio parece um rio que flui com violência entre as margens de Cronos e Kairós – rumo a um Aion que, sendo círculo, nunca permite desaguar.
Ao terminarmos o livro, ficamos com inúmeras perguntas sem respostas e com uma espécie de maravilhamento. Um pouco como quando, ao nos deitarmos em um campo aberto, olhamos para o céu estrelado de uma noite clara, sem precisar entender nem nomear o universo para nos arrebatarmos com sua vastidão. E cientes de que, como disse Albert Einstein, “a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão”.
CARLA BESSA é tradutora literária e escritora bilíngue português-alemão; é autora de Urubus (Confraria do Vento, 2020), premiado com o Jabuti na categoria “Contos”, e tage leben (Matthes & Seitz Berlim, 2025), entre outros títulos
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