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Entre a voz e o sujeito: Por uma IA que fale em nosso nome

Entre a voz e o sujeito: Por uma IA que fale em nosso nome

2 meses atrás

Em 2025, sob o governo de Edi Rama, a Albânia nomeou uma inteligência artificial como ministra de Estado, a Diella. Entre tantas questões suscitadas pelo fato, uma merece atenção psicanalítica: a voz de uma tribo, família, comunidade, povo ou nação pode advir de um artefato técnico? Claro que nenhuma dessas unidades político-culturais fala. Não encontraremos em nossa frente uma nação e a escutaremos dizer sua opinião sobre algo. Isso acontece pela escrita ou voz de alguém. Ao mesmo tempo, quando esse alguém fala, é como um suporte desse “outro”, ou seja, fala-se em nome da nação.

Frantz Fanon percebeu bem a importância disso em O ano V da revolução argelina. Mas “as primeiras palavras” da nação que se libertava não foram ditas por alguém, uma pessoa individual de carne e osso, mas por um artefato técnico: o rádio. Ao ouvir, no rádio, a revolução, dizia Fanon “o argelino existe com ela, e faz com que ela exista”; de tal modo que “aceitar a tecnologia radiofônica, comprar um aparelho e viver a nação em luta coincide”.

Fanon não se referia a qualquer rádio, logicamente. Antes havia a Rádio Argel, a voz do colonizador que expulsava a “esperança do coração” e mantinha a “agonia contínua do colonizado”. A partir de 1956, contudo, A Voz da Argélia Combatente carregava “a mensagem grandiosa da revolução” – fazendo com que todo argelino se sentisse convidado “a se tornar um elemento reverberante da vasta rede de significados nascida do combate libertador”. A esperança, o espírito de resistência, a confiança amplificada e a fé na “nação” eram alimentados por A Voz radiofônica.

A princípio, alguns podem dizer que a rádio ou A Voz são só uma figura de linguagem para se referir às pessoas que falam na transmissão: uma simples metonímia. É justamente nesse ponto que mora um dos segredos psicanalíticos de toda a questão. A relação com a rádio não era apenas sobre querer informações, mas sobre o desejo de ouvir as palavras da “nação” e da “revolução” – e era por metonímia que a rádio suportava o lugar simbólico da nação revolucionária; em outras palavras, ela era o pequeno outro pelo qual o grande Outro organizava a experiência dos argelinos em luta.

O psiquiatra e pensador martinicano identifica isso de modo brilhante no caráter fantasmático com quem os ouvintes criavam sentido para os conteúdos e informações inaudíveis do som da rádio. A guerra de libertação era também uma guerra radiofônica. A Voz sofria ataques dos colonizadores que redundavam em constantes interferências e, consequentemente, tornavam as informações entrecortadas, descontínuas e cheias de ruídos e chiados. A voz era frequentemente incompreensível mesmo aos ouvintes mais atentos. Mas não ouvir literalmente o que era dito, não captar todas as informações, em nada alterava “sua realidade ouvida e seu poder”. Com um trabalho de elaboração coletivo dos próprios ouvintes, as lacunas eram preenchidas, os ruídos faziam sentido com o trabalho do desejo, com a crença coletiva na “nação” – encarnando o “sou onde não penso” anunciado por Lacan.

Se A Voz estava “em pedaços dispersos”, quem garantia o sentido à cadeia de significantes (S2) e, consequentemente, dava consistência à experiência era, portanto, o grande Outro. Os significantes-mestres (S1), “nação” e “revolução”, funcionavam como pontos de ancoragem do sentido para a S2, fixando provisoriamente o campo simbólico e oferecendo ao sujeito coordenadas mínimas de identificação. Como um ponto de basta, costurando o sujeito à sua realidade simbólica, eram os S1 que conferiam unidade e inteligibilidade à experiência – de outro modo dispersa. “Revolução” e “nação” faziam o basteamento. Os ruídos incompreensíveis da rádio ganhavam sentido cada vez que se ouviam tais significantes, produzindo a verdade que os garantiam em luta. Ou como dizia o martinicano: “A Palavra da nação e o Verbo da nação ordenam o mundo, renovando-o”. Era pelo fato de haver um Outro garantindo o desejo que a rádio podia falar em nome da “nação” e da “revolução”.

No nível psicopatológico, relembra Fanon, a rádio assumiu um significado – digamos que transferencial – completamente novo. Se antes a Rádio Argel era um objeto ansiogênico, produtor de sofrimento mental e despersonalização do colonizado, com A Voz, enquanto processo mental, aconteceu “uma quase invenção da tecnologia”. Aquilo que era “estrangeiro” e “colonizador” passou a ser fonte de amparo, como “um órgão protetor contra a ansiedade”. O objeto técnico tornara-se então um meio de libertação política e também fonte de saúde.

O pequeno outro e o grande Outro, em Lacan, pertencem à ordem estrutural – isto é, dizem respeito à lógica da constituição do sujeito na articulação entre os registros do imaginário e do simbólico; não aos conteúdos empíricos ou psicológicos individuais. O pequeno outro se refere ao semelhante especular, vinculado ao registro imaginário; enquanto o grande Outro designa o campo da alteridade simbólica do qual o sujeito depende para se constituir. Todavia, ambos só possuem sentido e eficácia simbólica sob formas historicamente determinadas. As formas em que o pequeno outro e o grande Outro se encarnam empiricamente são relativas, assumindo figuras concretas em cada contexto, seja, por exemplo, como Igreja, Estado, ciência, medicina ou nação, seja como padre, juiz, especialista, médico ou cidadão.

Para os argelinos da década de 1950, A Voz só funcionou como pequeno outro, como encarnação do grande Outro – e este, por sua vez, só apareceu sob a forma de “nação” e “revolução” na medida em que foram investidos de legitimidade simbólica. Tal eficácia residiu em algo forjado historicamente.

A rigor, como podemos imaginar, seria preciso investigar mais detalhadamente como isso aconteceu no processo revolucionário argelino em particular. Mas, ainda assim, os aprendizados são importantes: a dinâmica entre o pequeno outro e o grande Outro no âmbito da política não precisa de uma pessoa de carne e osso para ocorrer; um artefato técnico pode ocupar esse lugar com muita eficácia. Ademais, o mesmo artefato pode ser apropriado politicamente e se transformar: de colonizador em libertador.

Hoje, a bem da verdade, não só não estamos em um contexto tal qual o argelino, como também as mídias se transformaram brutalmente, seja com as “redes sociais” geridas por IA corporativas, seja com a presença diária de IA conversacionais na forma de chatbot. Mas se historiograficamente nos parece incorreto chamar a atual expropriação e acumulação capitalista de dados de “colonialismo”, não menos verdadeiro é que tais mídias têm promovido diversas dinâmicas de despersonalização e sofrimento mental.

Análogos à Rádio Argel, cada vez mais os ChatGPTs também são artefatos ansiogênicos, produtores de sofrimento mental, e nos “colonizam” diariamente. Neste caso, trata-se de artefatos centrais na economia da atenção. Em nome da eficiência e da otimização permanente de si, eles nos interpelam a responder, produzir, atualizar, comentar – a nunca desligar. Nesse regime de presença compulsória, o sujeito passa a medir o próprio valor pela capacidade de manter-se conectado e responsivo. O imperativo do Outro é do up to date, de manter-se atualizado.

As consequências sobre a saúde mental são profundas: a atenção fragmentada e o tempo capturado geram um estado de alerta constante, favorecendo quadros de exaustão, ansiedade e sensação de insuficiência. O descanso torna-se culpa, o silêncio torna-se desconexão e o ócio torna-se falha. Ao “colonizarem” afetos, tempo e atenção, as IAs corporativas não apenas exploram a subjetividade, como também recriam suas fronteiras psíquicas sob a lógica da vigilância e da produtividade, gerando sujeitos cada vez mais dependentes, fatigados e emocionalmente fragilizados.

Tendo isso em mente, talvez uma tarefa analítica central seja buscarmos a maneira pela qual tais artefatos técnicos aparecem como vocalizadores empíricos do Outro, as atuais formas metafóricas e metonímicas com que a ordem simbólica se apresenta, os significantes-mestres que fazem o basteamento do fluxo difuso de informações e afetos.

Se a Radio Argel falava em nome do Colonizador, a ministra Diella fala em nome da Albânia, o “ChatGPT” fala em nome de quê? De quem? Lacan aponta de que modo o discurso do Outro assemelha-se a um circuito ao qual estamos integrados. Se no contexto argelino o circuito antes de 1956 era colonial, a qual circuito, em nosso caso contemporâneo, estamos integrados?

Para Matthew Flisfeder, em Algorithmic Desire: Toward a New Structuralist Theory of Social Media [Desejo algorítmico: Em direção à nova teoria estruturalista das redes sociais], por exemplo, quando o indivíduo posta algo, ele não se dirige apenas aos amigos e amigas, mas à “rede” enquanto figura do grande Outro. Ao montar e remontar o perfil, o sujeito produz um significante de si que deseja ver integrado ao domínio da lei simbólica – buscando aparecer como objeto desejado do Outro. O perfil importa porque condensa o desejo de ocupar um lugar legível na estrutura social, respondendo a uma falta constitutiva que pode ser traduzida em: “O que eu sou para as (minhas) redes?”.

Em contrapartida, as IA corporativas que fazem a curadoria dos feeds e linhas do tempo não servem apenas para adaptar conteúdos aos gostos individuais, prendendo atenção do usuário, mas para curar o próprio grande Outro – diante do qual o sujeito se apresenta. A ordem simbólica passa hoje por algoritmos de IA, e é a partir deles que experimentamos, inconscientemente, o “olhar” e o “saber” do Outro.

Mesmo quando conversamos sem pudor com um chatbot, fazemos a suposição de um Outro que nos lê, nos avalia e, de algum modo, “sabe” algo sobre nós e sobre o que queremos dizer – daí seu poder transferencial. Nesse sentido, a exposição de si funciona como uma resposta antecipada a esse olhar virtual, um modo de testar posições possíveis na ordem simbólica e de extrair disso algum índice de reconhecimento. O “sem pudor” é, no fundo, enganoso: é justamente porque suponho um Outro que me permito falar excessivamente em anonimato, como quem confia que esse Outro dará forma, sentido e lugar de reconhecimento ao que é dito.

Frases como “Vou postar nas minhas redes!” ou “Deixa eu ver no meu ChatGPT” são sintomas de que tais significantes operam o basteamento e estruturam inconscientemente o campo difuso de informações e afetos. A atual referência ao “Meu algoritmo!” funciona menos como descrição técnica e mais como tentativa de suturar, no nível do discurso, aquilo que se apresenta como excedente, contingente e potencialmente caótico na experiência, conferindo unidade. Ao fazer isso, o sujeito busca garantir certa coerência interna – que lhe permita sustentar uma posição subjetiva minimamente estável diante da multiplicidade de interpelações algorítmicas.

Diferentemente da mensagem de A Voz, tais artefatos não conjugam Palavra e Verbo, como assinalado por Fanon. A Palavra é monopolizada pela gramática das redes, o Verbo é difundido de forma condicionada pelos monopólios digitais. Estariam as redes, como um fantasma, tentando preencher o vazio deixado pela desagregação das redes de solidariedade offline tragadas pelo neoliberalismo?

De toda forma, como demonstrado por Fanon, a travessia desse fantasma só é possível com a articulação de um significante-mestre que permita a ressignificação das tecnologias, forjando um sujeito da enunciação oriundo da agência subalternizada – que ocupe as brechas do “instagramável” e possa superá-las através de uma verdade atuante, organizadora de desejos para além de likes.

A partir das lutas da Frente de Libertação Nacional (FLN), A Voz representou uma verdade atuante que encurralou a verdade do opressor. A Rádio Argel foi derrotada, o Outro colonizador foi derrotado. A Argélia se libertou. Desse modo, cabe perguntar: como construir uma nova tecnologia para nós? Qual circuito precisamos forjar para que se constitua legitimamente um novo Outro? Como podemos ter uma IA que fale em nosso nome e com nossas vozes? Ou melhor, quais “nação” e “revolução” precisamos construir para que um chatbot possa falar em seus nomes?

LEANDRO MODOLO é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e pesquisador da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã/Fiocruz – RJ

SAMUEL GALIEGO é historiador (UNIFACCAMP), professor da rede pública de ensino do estado de SP e na Rede Emancipa de Cursinhos Populare

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