A cidade de São Paulo é construída por estrangeiros e precisa colaborar para o processo, segundo especialistas
Por Isabella Lopes*

A migração é o deslocamento no espaço geográfico, que pode ser permanente ou não e ocasionada por fatores como conflitos, desastres ambientais, busca por melhores oportunidades de vida, estudos ou emprego. Também pode ser dentro do próprio país ou em outro. O processo de integração envolve duas vias: quem chega e aqueles que já estão no território, no qual ambas precisam ceder para alcançar uma convivência saudável.
A adaptação a um novo ambiente, por sua vez, apresenta desafios econômico, ambiental, social e educacional ao migrante. Afinal, é preciso deixar para trás o conhecido para dar lugar ao desconhecido e conviver com o luto relacionado às vivências — perdas significativas de fases da vida, ambientações culturais, expectativas, relacionamentos e lugares.
De 2017 a 2022 o Estado de São Paulo recebeu 736,4 mil migrantes e a capital é historicamente um dos principais pontos para pessoas de diferentes regiões do Brasil e do mundo. O bairro do Bixiga, por exemplo, foi destino de italianos no final do século 18 e início do século 19. Tradições, gastronomia e o idioma do país são marcas desse recorte paulistano.

Já o Ipiranga tem participação de libaneses. A família Jafet, que se dedicava à fabricação de tecidos, atuou na industrialização da região e construções com características de sua cultura, como o Palácio dos Cedros, próximo ao atual Museu do Ipiranga.
O bairro da Liberdade, cujo nome faz referência a súplicas de libertação de escravizados negros, é fruto da junção de costumes distintos. É símbolo para o movimento abolicionista, que se encontrava na área para reafirmar o fim dessa violência. A partir do século 20, passou a abrigar imigrantes japoneses, principalmente após o início da Segunda Guerra Mundial, os quais implantaram comércios, festas e arquitetura. Outros povos do leste asiático, como chineses e sul-coreanos, também se fazem presentes na área.
O humano e a cidade
A construção da identidade de cada indivíduo se relaciona ao espaço no qual está inserido. De acordo com Sandra Patrício, professora do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo, esse processo envolve três frentes: subjetividade, comportamento e o lugar.
A subjetividade é ligada aos sentimentos, pensamentos, convicções, conhecimento e memória, segundo a especialista. Já o aspecto comportamental se liga aos hábitos desenvolvidos, ao repertório e ao modo de agir. O contexto, por último, não é ligado somente ao espaço físico, mas também é “pensado do ponto de vista físico, biótico, histórico, cultural e social”.
Entretanto, devido às diferentes motivações do deslocamento, a identidade pode chegar em diferentes estados: “Se eu venho porque fui forçada a migrar, eu já venho sofrida de antes”, explica. A professora demonstra que a assimilação de valores e diálogos é um processo importante para o migrante, já que um novo conjunto “entrará em embate” com a construção própria da pessoa.

As dinâmicas da cidade se alteram com o passar do tempo. Para Maria Camila D’Ottaviano, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, esse fenômeno influencia a inclusão de estrangeiros e, consequentemente, a construção de uma nova identidade. “A gente tem uma mistura hoje nas cidades em que o acolhimento, que era muito localizado, deixou de existir”, afirma.
Apesar da rede de apoio entre indivíduos de uma mesma cultura ter se dispersado, a docente nota que, quando um espaço é diverso, melhor e mais tranquilamente um estrangeiro é incluído. “Esse local pode ser tanto a casa onde essa pessoa vai morar, uma unidade individualizada, quanto o bairro”, exemplifica.
Como facilitar o processo
Maria Camila demonstra que a construção do espaço da cidade pode auxiliar no processo de integração de um migrante. Na escala habitacional, o respeito às dinâmicas culturais de origem do indivíduo também é uma prática recomendada. Em ambiente público, a especialista destaca a junção de elementos no projeto, construção e uso: “Dá para reproduzir praças, espaços e até árvores familiares. Se essas pessoas se sentirem incluídas, elas vão usar e se sentir pertencentes à cidade”.
O acesso à moradia é a primeira dificuldade enfrentada na chegada a um novo lugar, sob a percepção da professora. O valor e a burocracia no processo de compra de uma casa são entraves na adaptação que, muitas vezes, levam os estrangeiros a condições precárias.
Do ponto de vista psicológico, Sandra Patrício explica que “é preciso elaborar o luto do que teve que se abrir mão, aceitar que teve que sair”. Ela defende que quem recebe a pessoa e o migrante em si precisam estar disponíveis para ceder à adaptação. “Quem chega não vai modificar os hábitos de mais de 10 milhões de habitantes. Por outro lado, a cidade precisa ter um acolhimento e compreensão ao novo”, finaliza.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
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