Se o mercado financeiro brasileiro fosse a um psiquiatra esta semana, o diagnóstico seria claro e imediato: transtorno bipolar agudo com episódios de delírio. De um lado, uma personalidade sóbria, paranoica e conectada à dura realidade dos fatos. Do outro, uma personalidade maníaca, eufórica e vivendo em uma bolha de fantasia cor-de-rosa. E o mais assustador: as duas habitam o mesmo corpo, olhando para os mesmos dados e chegando a conclusões diametralmente opostas.
A semana começou com uma tensão palpável. Todos esperavam pelo grande evento de quarta-feira: a decisão de juros do Federal Reserve, o banco central que rege o humor do dinheiro no planeta. O Fed fez exatamente o que se esperava: cortou sua taxa de juros de 4,25% para 4,00%. Foi o açúcar. Mas logo em seguida, na coletiva de imprensa, seu presidente, Jerome Powell, serviu o remédio amargo, com um discurso duro que basicamente disse ao mundo: “Aproveitem, pois a mamata do dinheiro fácil está em pausa e não há previsão de quando volta”.
Foi o gatilho para a primeira personalidade se manifestar. A sóbria.
O mercado de juros futuros e o dólar, que são operados por gente que lê as entrelinhas e faz contas, entenderam o recado na hora. O alarme soou. As taxas de juros no Brasil subiram na quarta, na quinta e na sexta. Foi a reação lógica de quem sabe que, com o chefe do banco central mais poderoso do mundo sinalizando cautela, a nossa já combalida situação fiscal fica ainda mais exposta e perigosa. O dólar, por sua vez, parou de cair e voltou a subir, como sempre faz quando o cheiro de risco aumenta. Essa parte do mercado olhou para os fatos e se preparou para o impacto.
Enquanto isso, em outro canto do cérebro do mercado, a personalidade maníaca tomava o controle.
A Bolsa de Valores () não apenas ignorou o aviso de Powell; ela pareceu interpretá-lo como um convite para a maior festa do ano. Enquanto os juros subiam apontando para o perigo, o Ibovespa disparava, batendo recorde histórico atrás de recorde histórico, flertando com os 149 mil pontos. Foi um espetáculo de otimismo tão descolado da realidade que faria Pollyanna parecer uma pessimista depressiva.
“Mas a economia está bombando!”, diria o otimista delirante. Será? A alta da Bolsa não foi um reflexo de uma súbita pujança nacional. Foi uma festa VIP, bancada por um punhado de empresas, como a (impulsionada por fatores externos) e os grandes bancos. O resto da economia, as empresas que dependem do crédito que ficou mais caro e do consumo que não decola, assistiu a tudo da arquibancada.
E para piorar o quadro do paciente, na sexta-feira, vieram os exames de sangue que ninguém queria ver. O Tesouro Nacional abriu os livros e mostrou a realidade nua e crua da nossa situação fiscal, o problema central que temos alertado há semanas. O resultado? A Dívida Bruta subiu para 78,1% do PIB e o governo registrou um déficit de mais de 17 bilhões de reais só em setembro. Foi a confirmação matemática de que o “alerta vermelho” não é uma opinião, é um fato. E o que a Bolsa fez? Ignorou. Continuou sua festa particular, surda aos alarmes e cega aos números.
Essa esquizofrenia fica ainda mais gritante quando olhamos para fora. O mundo inteiro está em uma ressaca fiscal. Estados Unidos, Europa, Reino Unido… todos estão debatendo cortes, austeridade e como pagar as contas de dívidas que explodiram. A prudência é a ordem do dia. O Brasil, ou melhor, uma parte do Brasil, decidiu que nada disso importa e promoveu uma festa solitária.
Agora, a semana se desenha como uma sessão de terapia de choque. O foco volta para casa. O grande evento é a decisão do Copom sobre a taxa Selic, na quarta-feira. O Banco Central brasileiro será o psiquiatra que terá que dar o diagnóstico final. Ele vai validar a euforia maníaca do Ibovespa ou vai se alinhar à paranoia justificada do mercado de juros? O comunicado que virá junto com a decisão será o laudo que definirá o tratamento.
Além disso, teremos uma bateria de exames complementares: dados de Produção Industrial na terça e, nos EUA, números sobre o mercado de trabalho. Cada um desses dados será uma nova dose de realidade.
A divergência entre a Bolsa e os juros tornou-se insustentável. Alguém está perigosamente errado. E enquanto os otimistas celebram recordes em um índice puxado por poucas empresas, o custo real do dinheiro para o país inteiro sobe, e a nossa dívida continua crescendo. A questão não é se uma das personalidades vai ceder, mas qual delas. E a realidade, historicamente, tem um péssimo hábito de não aceitar desaforos.
É hora de entrar em AÇÃO!
