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Bolívia pende para a direita e decide futuro político em segundo turno histórico – Jornal da USP

9 meses atrás


Amâncio Jorge Oliveira analisa o atual cenário político boliviano; o país teve sua primeira eleição com segundo turno desde a redemocratização, em 1982

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A atuação do ex-presidente Evo Morales foi controversa: foi impedido de concorrer pela Justiça, fomentando protestos e o chamado a votos nulos – Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil
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A Bolívia vive um momento político histórico. A eleição boliviana de 2025 marca o fim de uma era socialista e aponta para uma transição ao centro ou centro-direita, em meio a uma grave crise econômica e institucional. O segundo turno de 19 de outubro será decisivo para definir o rumo político e econômico do país. Foram realizadas em agosto passado as eleições gerais para presidente, vice-presidente, deputados e senadores. Com quase 90% de participação eleitoral, o país escolheu os candidatos para o segundo turno. A novidade é que, depois de 20 anos, foi a primeira vez que não teve um nome de esquerda na disputa. 

Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira – Foto: FFLCH

O professor Amâncio Jorge Oliveira, do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e professor  de pós-graduação do Departamento de Ciências Políticas, explica que a população está cansada política e economicamente e deseja mudanças. O que se nota é uma emergência global da direita, o que não significa que o Continente esteja se tornando um polo de direita. O especialista da USP entende que a eleição americana deve influenciar o resultado nas urnas da América Latina:  “Contudo, existem polarizações, existem alguns países, a exemplo do Uruguai, que recentemente elegeram um candidato de esquerda, um candidato que é, vamos dizer, da linha do Mujica, que é um ícone da esquerda latino-americana. Como sempre, a América Latina tem movimentos pendulares, mas nunca é homogêneo, todos os países de um espectro de esquerda ou de direita. Portanto, a polarização, a heterogeneidade coexistem na América Latina”.

Ele prossegue em sua análise: “Eu não sei se existe algum estudo no sentido de observar contaminação, ou seja, como efeito em onda, algum estudo acadêmico dessa natureza, que seria até interessante, ou seja, o time, a propagação dos regimes políticos e das orientações políticas no governo, mas, de todo modo, o que dá para dizer é que existe uma grande heterogeneidade”. O professor faz ainda faz uma comparação entre Argentina e Bolívia, as duas surpresas da América Latina, justamente por serem países nacionais desenvolvimentistas. 

Peso da economia

O cenário econômico impactou fortemente os eleitores. A Bolívia atravessa sua pior crise em décadas: inflação acima de 20%, escassez de combustível e dólares norteiam o debate público. Além disso, o afastamento do partido histórico MAS (Movimiento al Socialismo) que, por quase 20 anos, dominou a política nacional, marcou uma guinada: o partido atingiu seu pior resultado eleitoral em 2025, garantindo apenas cerca de 3% dos votos. 

A forte fragmentação política e a crise econômica estimularam o voto nulo e em branco — quase 20% dos votos foram anulados, número alto e simbólico, especialmente após apelos de Evo Morales. A atuação do ex-presidente foi controversa: foi impedido de concorrer pela Justiça, fomentando protestos e o chamado a votos nulos.

Apesar das promessas de avanços, as organizações ambientais e os povos indígenas manifestaram ceticismo. Alertam para a degradação ambiental crescente — desmatamento, poluição por mercúrio e crises hídricas —, que dificilmente seria revertida com os projetos econômicos emergentes. 

A juventude boliviana, especialmente conectada pelas redes sociais, foi fator decisivo na campanha, com grande presença on-line e influência nas urnas. O ponto de observação neste momento é a “contaminação” das eleições norte-americanas na América Latina. 


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